12/01/2026

O avanço da demanda e o espaço crescente para repotencializar

O setor de energia no Brasil vive uma grande expectativa em 2026. Segundo estimativa da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a  projeção dos leilões prevê a movimentação de até R$ 137 bilhões. Esses aportes permitirão uma expansão da infraestrutura elétrica no país,  gerar empregos na construção das linhas ,aumentar a oferta de energia, reduzir as perdas na transmissão, além  de garantir a estabilidade do sistema e evitar os apagões nos grandes centros urbanos.

 

No entanto, o cenário não é constituído apenas por boas notícias. Os agentes do setor sabem que, mesmo com novos empreendimentos e recursos, a capacidade de transmissão continuará pressionada.  De acordo com o Plano Decenal de Expansão de Energia 2034 da EPE, a geração deve avançar 3,5% ao ano até atingir 320 GW, enquanto o consumo cresce de forma ainda mais acelerada, impulsionado por data centers, hidrogênio verde, digitalização e eletromobilidade. Diante disso, o ritmo de crescimento da transmissão é insuficiente para acompanhar a expansão da geração e a explosão do consumo.

Esse cenário evidencia um ponto crítico: construir novas linhas não será suficiente para atender às necessidades do sistema elétrico brasileiro. Além dos longos prazos de licenciamento, que hoje podem superar três anos antes mesmo do início das obras, existem limitações geográficas e socioambientais que inviabilizam a abertura de novos corredores de transmissão, especialmente perto dos grandes centros consumidores. É nesse contexto que emerge uma solução técnica e estratégica, ainda pouco explorada no país, mas amplamente utilizada em mercados maduros: a repotencialização de linhas existentes.

Repotencializar significa aumentar significativamente a capacidade de transmissão sem a construção de novas torres, ampliação de faixas de servidão ou grandes intervenções civis. A técnica se baseia na substituição de cabos convencionais por condutores de alta performance capazes de operar em temperaturas muito superiores, mantendo os mesmos critérios de segurança. A tecnologia mais aplicada internacionalmente envolve cabos do tipo HTLS (High Temperature Low Sag), como ACSS ou ACCC, que podem operar entre 180°C e 250°C,  muito acima das faixas típicas de condutores tradicionais. O resultado é um salto relevante na capacidade de escoamento de energia.

O país possui uma malha extensa, com milhares de quilômetros de linhas construídas entre as décadas de 1970 e 2000, muitas já operando próximas de seus limites térmicos. A própria Eletrobras indica que cerca de 40% de suas linhas têm potencial de recapacitação. Contudo, apesar da relevância, trata-se de um tema praticamente inédito no Brasil em termos de aplicação prática. Os efeitos dessa ausência já se manifestam. Projetistas já recebem demandas para soluções de reforço, transmissoras buscam alternativas para evitar sobrecargas e apagões nas grandes cidades e integradores mapeiam tecnologias capazes de entregar desempenho superior sem exigir novas estruturas metálicas. Tudo isso enquanto o país avança para uma década em que centros urbanos densos, corredores logísticos e regiões de alta criticidade não terão espaço físico e tempo regulatório para novas linhas paralelas.

A possibilidade de aplicar, pela primeira vez no Brasil, uma solução madura em outros mercados representa um divisor de águas. A recapacitação pode ser decisiva para evitar entraves de transmissão em áreas estratégicas e para complementar a ampliação das linhas leiloadas. Mais do que uma alternativa, trata-se de uma oportunidade: incorporar ao sistema elétrico brasileiro uma tecnologia capaz de aumentar a capacidade instalada utilizando a própria infraestrutura existente, antecipando soluções para desafios que já começam a se materializar.

O Brasil está diante de uma mudança estrutural e histórica. Modernizar, adaptar e ampliar a malha de transmissão nacional  com precisão técnica será fundamental para garantir que a energia, cada vez mais renovável e distribuída, chegue aos centros consumidores com estabilidade e segurança. Se o setor conseguir alinhar inovação, regulação e planejamento, essa tecnologia pode evoluir de alternativa emergente para diferencial estratégico.

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